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Responsabilidade e tecnologia

Tecnologia: Está a chegar um “novo normal”?

No Reino Unido, 50% das pessoas que usam as novas tecnologias afirmam que estas vieram facilitar a sua vida no dia a dia. Mas apenas 12% considera que as TIC tenham ajudado a melhorar a sociedade, no seu todo.

Os dados são de um estudo feito pela Doteveryone, uma organização inglesa que quer  “tornar a internet mais justa”. A sua fundadora, Marta Lane Fox, tem assento no Parlamento britânico e na administração do Twitter e foi uma das pioneiras no desenvolvimento do comércio online.

Deixamos aqui as principais linhas do grande desafio que deixou em Lisboa, na Conferência TIC TeC que reuniu representantes do movimento “Civic Tech” de 29 países.

Um Ponto de Viragem?

Na sua perspetiva, a grande disparidade entre estes números ilustra bem “a ansiedade e preocupação com que as pessoas estão hoje a olhar para os meios digitais”. Depois de uma certa euforia que acompanhou a chegada dos produtos e serviços baratos disponibilizados pelas tecnológicas e a possibilidade de, de repente, ser possível estar ligado ao mundo inteiro,  “estamos agora numa crise”.

O recente escândalo Cambrige Analytics e as manchetes a que deu origem um pouco por toda a parte, “mostram que chegámos a um ponto em que é preciso repensar a relação que temos com as tecnologias e a forma como as estamos a usar”.

E para enfrentar “este momento, de enorme importância, que o setor está a atravessar”, Marta Lane Fox deixou uma proposta assente numa visão muito concreta, em três frentes, que já começou a ser implementada no Reino Unido.

Investir numa boa regulação

Na sua opinião, a primeira peça deste puzzle, que é também a mais complexa, é o grupo dos legisladores e decisores políticos que, no mundo inteiro, “enfrentam grandes desafios para se manterem a par das mudanças, que estão a acontecer nesta área a uma enorme velocidade”.

Para contribuir para uma melhor compreensão desta realidade e para decisões mais esclarecidas e eficazes, foi criado um programa de formação para os deputados ingleses que, com a ajuda de mentores, aprendem a tirar partido das tecnologias e a experimentar os seus benefícios e fragilidades.

Este programa foi já alargado a outras dimensões do setor público britânico como o sistema de saúde e vários municípios. Em última análise é uma aposta, a prazo, em mais e melhor regulação.

O Papel da Sociedade Civil

Para Marta Lane Fox, a segunda peça do puzzle é a sociedade civil. Na esfera individual de cada um mas também ao nível das suas organizações.

Voltando aos dados apurados pelo estudo da Doteveryone, foi constatado que 97% das pessoas consideram as condições e termos de uso dos serviços e produtos digitais “incompreensíveis e inaceitáveis”. Apenas 40% dos inquiridos afirma que as lê e tenta compreender o seu conteúdo.

Números que “evidenciam um desconhecimento generalizado do tipo de transação que é feita entre os utilizadores e as empresas, que têm acesso à sua privacidade e recolhem os seus dados”.

Uma Campanha para a Saúde Digital

Sensibilizar o público para a importância da acessibilidade desta informação é o objetivo da campanha pública,  “Digital Public Health Campaign”, que está a adaptar o modelo das campanhas anti tabágicas do passado, à saúde digital dos consumidores.

“A que informação se deve ter acesso?”, “Como ser mais robusto e resiliente neste mundo digital?”, “Que limites deve ter a nossa privacidade?” e “Que tipo de transação está a ser feita com serviços, aparentemente gratuitos, que pedem dados em troca da sua utilização?”. Estas são algumas das questões que pretendem lançar um debate público sobre como fazer escolhas online e sobre as responsabilidades envolvidas na utilização deste meio.

Empresas & Responsabilidade

Finalmente, para a fundadora do Doteveryone, a terceira peça do puzzle, são as próprias empresas.

No Reino Unido está a ser formado um consórcio de “empresas tecnológicas responsáveis” que vão adoptar nos seus processos de desenvolvimento e produção de novos produtos e serviços, uma matriz ética que as distinga .

E já foram estabelecidos alguns princípios para enquadrar estas organizações. (1) Não devem potenciar nem agravar desigualdades (2) Devem reconhecer e proteger a dignidade e os direitos de todos (3) Devem ser credíveis e gerar confiança junto dos seus públicos/consumidores.

E Agora?

A responsabilidade pode vir a ser a nova normalidade no mundo das tecnologias?

Marta Lane Fox reconhece que, há 20 anos atrás, quando começou a trabalhar nesta área, era impossível prever muitas das consequências indesejáveis que a tecnologia nos trouxe e com as quais estamos agora a ter que lidar.

Mas conta também que, nas suas viagens, vê muitas coisas promissoras a acontecer e muita  gente a trabalhar em soluções para enfrentar os atuais problemas. No seu entender, com uma abordagem conjunta, organização e foco nas várias frentes desta crise sistémica, podemos um dia olhar para trás e ficar espantados com o que foi possível fazer.

A 5ª edição da Conferência TIC TeC que aconteceu em Lisboa, pretendeu ser mais um contributo para esta façanha. Foi organizada pela organização My Society, já com parcerias em 40 países, que deixamos aqui apresentada (em inglês) pelo seu CEO, Mark Cridge.